domingo, 10 de maio de 2015

Livros adultos para colorir reduzem o estresse e estimulam a concentração


Desenhos complexos funcionam como uma terapia “não-verbal” e podem dar dicas sobre a personalidade e o estado emocional de cada um.



Canetinha, giz de cera, lápis de cor e desenhos em branco deixaram de ser uma brincadeira exclusiva de crianças. Febre na Europa, os livros para colorir caíram no gosto dos adultos e estão disponíveis no Brasil, em séries especiais, com desenhos complexos e pouco infantis, ricos em detalhes e possibilidades. Mais do que um simples hobby, a prática de colorir é enxergada como terapia antiestresse e também ferramenta para aprimorar algumas habilidades cognitivas, como concentração e precisão.

O livro “Jardim Secreto”, da artista Johanna Basford, é um exemplo desse tipo de entretenimento voltado para adultos. De acordo com a Editora Sextante, desde dezembro - quando o exemplar foi publicado no Brasil – mais de 100 mil livros já foram vendidos. Nos Estados Unidos, esse número pula para dois milhões, de acordo com a lista de títulos mais vendidos do jornal The New York Times.

Todos os desenhos de Johanna, que lembram verdadeiros jardins encantados, foram feitos à mão pela artista. Por isso, o trabalho é tão rico em detalhes - e extremamente desafiador para quem não consegue se concentrar em uma única tarefa com calma e dedicação.

“O exercício de colorir tem características terapêuticas, porque provoca sensações de prazer e bem-estar. Ele relaxa e desestressa, por ser uma forma de brincar infantil. A criança não consegue lidar com normas ou com os limites do desenho na pintura. O adulto sim, então ele se concentra mais e promove a harmonia entre emoções externas e internas. É uma forma de expressão não-verbal”, explica Asline Gomes, terapeuta ocupacional da Villa Bela Vista, de São Paulo.

Foco no presente

Depois de um dia atribulado, poder voltar à infância é um exercício libertador. Como os adultos têm uma tendência maior ao perfeccionismo do que as crianças, o foco total na pintura dos desenhos faz com que o praticante se desligue de tudo, inclusive das preocupações cotidianas. Com a mente alinhada com o momento presente, centrada no ato de colorir, esse entretenimento pode funcionar como uma espécie de meditação colorida.

“Além de trabalhar o cognitivo, o colorir trabalha a questão do bem-estar. Acaba refletindo em outros setores da vida, como o profissional. Se a pessoa se sente mais relaxada depois de colorir os desenhos, haverá uma interferência positiva no dia-a-dia dela, pois ela fica mais calma e feliz. Para uma pessoa distraída, por exemplo, é algo que estimula a capacidade de concentração, o que também pode ser aproveitado no trabalho”, afirma Giovanna Dias Amato, terapeuta ocupacional do Hospital e Maternidade São Cristóvão.

Esse é o propósito das oficinas de mandalas, por exemplo. Por meio dos desenhos, é possível revelar um pouco da própria personalidade e do estado emocional do momento em questão. Isso fica mais aparente devido à escolha das cores e tons e do desenho, bem como a pressão sobre o papel. Para os livros de colorir, vale a mesma lógica. Embora a brincadeira relaxe e neutralize o estresse, ela não substitui uma terapia convencional. Todas as informações subjetivas dos desenhos coloridos precisam ser traduzidas por um profissional.

Outro erro comum é achar que esses livros podem funcionar às mil maravilhas para qualquer pessoa, como se fosse mágica. Não é bem assim. É fundamental que exista o interesse por atividades artísticas, como desenho e pintura. Do contrário, o exercício se transforma em uma obrigação tediosa e superficial, comprometendo todo o relaxamento que ele deveria proporcionar. Quem não gosta de atividades mais introspectivas, como essa, e não gosta de ficar parado muito tempo, precisa procurar outra forma de se distrair.

“Tem de existir um objetivo e um significado, senão a pessoa só se frustra com os livros para colorir. Não indico àqueles que são muito impacientes. Os desenhos não são fáceis e você precisa se comprometer a completar as etapas, com dedicação”, pondera Giovanna Dias Amato.

Como começar

O primeiro passo é fazer uma pesquisa entre os títulos que já estão disponíveis no Brasil, em livrarias e lojas especializadas. O Jardim Secreto, por exemplo, custa cerca de 30 reais. É interessante conferir os desenhos de cada exemplar, para escolher aquele mais atrativo e divertido para horas de pintura a fio. Se você é principiante e ainda está um pouco inseguro, o melhor é buscar aqueles com desenhos mais simples e avançar na complexidade artística aos poucos, sem pressa.

A escolha do material também pode variar. Há quem se sinta mais à vontade para usar giz de cera, mas o lápis de cor é o mais indicado para todos os níveis. A canetinha, por outro lado, só vale para quem sabe usar sem rasgar o papel ou manchar o verso, o que pode acabar comprometendo outros desenhos.

Com o kit de artes em dia, é o momento de reservar um tempinho da agenda para se dedicar à brincadeira de colorir jardins e florestas encantadas. A escolha do horário depende do objetivo de cada um. Se a ideia é chegar mais disposto e focado no trabalho, a dica é pintar os desenhos pela manhã. À noite, porém, funciona mais para quem quer se desligar das preocupações do dia e relaxar, sem precisar fazer mais nada.

Mas, chega um momento em que os livros e os desenhos perdem a graça? Para Asline Gomes, não. “Acredito que não, porque os desenhos trazem essa sensação de conhecer novos limites, artes mais complexas. Hoje eu pinto flores, amanhã árvores e depois uma floresta. Então, é algo que estimula o conhecimento e traz novos desafios, por isso não tem um fim. E é até melhor que seja assim, porque as pessoas vão melhorando inúmeras habilidades com o tempo e com a prática”, diz.

Delas

Bordões usados pelas mães

 "Não faz mais do que sua obrigação" e "Juízo, hein?!" fazem parte da coletânea de frases

“Eu lembro que estava com um papel na mão quando minha mãe perguntou "você acha que sou sócia da Light?". Eu tinha esquecido a luz da cozinha acesa. Naquele momento, escrevi o que ela disse no papel e, a partir disso, resolvi unificar todas as frases que ouvia - e ainda ouço - dela”. Foi assim que o designer e ilustrador carioca Lucas Pamplona resolveu criar uma série de ilustrações usando bordões de mães - o que menciona a Light faz referência à concessionária de energia elétrica em atividade no Rio de Janeiro. 

Frases comuns aos ouvidos dos filhos como "Não faz mais do que sua obrigação" ou "Juízo, hein?!" fazem parte da homenagem. “A minha mãe, representando a maioria das mães, foi a minha grande inspiração”, conta Lucas.