domingo, 29 de junho de 2008

Arraiá da Marisa


Na noite de sábado, véspera de São Pedro, cada convidado trouxe como de costume os outros pratos de salgados e os doces, os mesmos que a gente encontra em qualquer arraial neste mês de junho.
O pitéu que mais fez sucesso, o bolo Souza Leão, a base de massa de mandioca, foi trazido de Pernambuco por Eduardo Campos, o único governador na festa.
É um bolo que ficou famoso ao ser oferecido por uma família de ricos usineiros, os Souza Leão, ao imperador Pedro II e sua mulher, Tereza Cristina, durante uma viagem ao Recife.
Desde a morte da mãe, Regina, em 1980, Marisa assumiu o comando da festa, que é uma tradição da família Casa. “Todo mundo pensa que festa junina é só uma tradição nordestina, mas em São Bernardo do Campo sempre foi uma tradição italiana também”.
Ao lado do marido, que nesta noite não faz discursos nem fala de política, Marisa me conta que começou a organizar a festa num terreno da família no bairro de Riacho Grande. Há doze anos, a festa mudou-se para a pequena chácara dos Silva às margens da represa Billings, em São Bernardo do Campo, antes de vir para a Granja do Torto.
Diz a tradição, segundo Marisa, que é preciso organizar a festa junina sete anos seguidos para dar sorte. “Aqui na Granja do Torto, vamos fazer por oito anos...”, contabiliza. Quer dizer, mais duas festas juninas estão garantidas neste arraial montado num salão já utilizado para reuniões ministeriais e num galpão com uma grande churrasqueira no centro, junto à casa em estilo rural onde a família costuma passar os fins de semana em Brasília.
O ritual de preparativos é sempre o mesmo. Uma semana antes, Marisa faz e envia os convites para cerca de cem pessoas. Em três dias, cuida da montagem dos enfeites e das mesas: bandeirolas coloridas típicas feitas lá mesmo; arcos de bambu ao longo de todo o caminho da procissão e uma fogueira.
Os convidados começam a chegar por volta das oito da noite. Ninguém pode vir de carro oficial. Pouco depois, vem o pessoal da casa do presidente: filhos, noras, netos, a família toda, e velhos amigos dos tempos em que Lula era apenas um líder dos metalúrgicos no ABC.
Quem nunca pode faltar é a vó, como todos chamam dona Marília, sogra de Marisa no primeiro casamento, uma espécie de matriarca adotada pelos Silva.
A cada ano, há mudanças na lista de convidados, acompanhando as mudanças no governo. Vieram, desta vez, uns 15 ministros e um único ex-ministro, Luiz Fernando Furlan, com a mulher, a artista plástica Ana Maria.
Só agora minha mulher Mara e eu descobrimos que nós nos casamos no mesmo dia, mês e ano dos Furlan, há quase quarenta anos. E ficamos felizes ao reencontrar o velho Jacó Bittar, um dos três líderes sindicais, ao lado de Lula e Olívio Dutra, que comandaram a fundação do PT no início dos anos 80 do século passado.
Além desta turma e de funcionários que trabalham diretamente com Lula no Palácio do Planalto, só reencontrei um deputado federal, Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo, esta semana escolhido candidato a vice na chapa de Marta Suplicy.
Meu amigo comunista, ma non troppo, não se avexou e também saiu na procissão, sempre o momento mais importante da festa para Marisa.
Quem cuida de organizar esta parte religiosa é Gilberto Carvalho, chefe de gabinete e braço direito de Lula, um ex-seminarista ligado às comunidades de base da Igreja Católica.
Este ano ele trouxe para comandar a procisso o frei Vicente Bohne, da paróquia de Santo Antonio. Antes da partida, o frade explicou o sentido dos festejos juninos, uma celebração aos quatro elementos da vida.
Começa sempre com a Festa do Divino Espírito Santo, que representa o ar; depois vem a de Santo Antonio (a terra); a de São João (o fogo) e termina com São Pedro (a água).
A procissão dá uma volta grande em torno da área residencial da Granja do Torto. Lula segue à frente, carregando o mastro com os três santos juninos, ao lado de Marisa, do celebrante, do vice José Alencar e da sua Marisa. No final da procissão, o mastro é fincado nos jardins da casa para dar proteção à família.
Com os fiéis caminhando, rezando o terço e cantando a ladainha de Todos os Santos, a procissão faz cinco paradas, uma para cada mistério.
Ao final, frei Vicente fez uma louvação aos dias melhores que o país está vivendo e um agradecimento aos presentes e a todo o povo brasileiro, que tornou isto possível.
Uma queima de fogos anuncia que a festa agora vai começar, ao som do conjunto “Chamego do Nordeste”, cinco músicos que vieram de Águas Lindas, município do entorno de Brasília, que atacam de forró “pé de serra” e arrastam os casais para a dança no salão.
Tem chope e quentão, canjica e pinhão, tudo que tem em qualquer festa do gênero. Lula e Marisa circulam de roda em roda, fazendo brincadeiras, reparando em quem engordou ou ficou mais careca.
Pouco antes das duas horas da manhã, a música pára e os convidados começam a ir embora, prometendo voltar no ano que vem. O “arraiá da Marisa” é isso, uma breve trégua de vida real em meio às inevitáveis turbulências de quem vive o dia a dia do poder.
Ricardo Kotscho

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Conceição!
Vim retribuir sua visitinha e conhecer seu cantinho.
Gostei... diferente e enriquecido com muitas variedades.
Seja muito bem vinda ao mundo do Cantinho Esotérico... se sinta a vontade!
Beijinhos enluarados e mt luz!

Anônimo disse...

Será que estão no fim mesmo as Festas Juninas? Que pena, não é mesmo?

Amiga, vim agradecer sua preciosa visita e dizer que o Forrobodó está em votação no mural 2 , no Halma Guerreira. Conto seu apoio, caso, considere merecedor.

Este é o link da sala de votação:

http://fribeiro1953.sites.uol.com.br/blog/destaqnet.html



Uma espetacular semana a você e sua família; N



Boa semana;N