sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Leis e grito para o Distrito Federal

Brasília era ilha de felicidade. Não havia legislativo local. De 1969 a 1988 o DF e territórios tinham governadores indicados pelo presidente da República, e ao Senado cabia a administração. O Plano Diretor era pelo crescimento sustentável da cidade.
O artigo 17 rezava que “A lei disporá sobre a organização administrativa e judiciária do Distrito Federal, e dos territórios. Caberá ao Senado Federal discutir e votar projetos de lei sobre a matéria tributária e orçamentária, sobre serviços públicos e pessoal da administração do Distrito Federal. O presidente da Comissão do DF era o senador que integrava o primeiro grupo de representantes. No início da cidade não havia Judiciário. Lucio Arantes era juiz em Planaltina, quando ainda era dependente do estado de Goiás, em 1951. Mais tarde recebeu autorização para se tornar o primeiro juiz de Brasília. Faleceu em fevereiro deste ano, aos 90 anos. Foi também professor de história e escritor. Vale a leitura de seu livro Do barro preto do Planalto Central.
Um dia a Constituição foi emendada. Recebeu artigo criando a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Aí começou o desgosto para os moradores de Brasília. Eleitos, deputados distritais começaram a fazer leis ilegais ou do interesse pessoal, indicando vantagens para essa ou aquela comunidade dos arrabaldes. Vieram as influências dos deputados. Foi então que o dinheiro apareceu a rodo para favorecer os líderes poderosos. Em seguida veio a ideia de eleições para prefeitos. Está por um fio para se tornar lei.
Outros fatos surgiram e os problemas se avolumaram.
Agora o poder emana do povo. Ao nascer a Câmara Legislativa do Distrito Federal, o último na lista de interesses dos políticos que ocupam aqueles lugares é justamente o povo que lhes deu poder. Foi representante um assassino que tinha dois nomes, outro que loteou o DF e grilou terras sem o menor pudor. Mais um era acusado de pedofilia. Escândalos atrás de escândalos vão atravessando a goela de quem está preocupado em pagar contas. Depois ver o dinheiro suado suando em meias e cuecas. Ultrapassa a tristeza. É revoltante. A Câmara Legislativa é um mal desnecessário. Brasília vivia muito bem sem ela. Pouco tempo atrás, a máfia dos grileiros foi interceptada pela Polícia Federal. Telefonemas grampeados mostraram, à esquecida população, diálogos entre empresários, lobistas, marqueteiros e deputados distritais. Fofocas, interesses escusos, gastos com o dinheiro público, a população teve acesso a tudo, mas se esqueceu. Não houve punição. Pelo contrário. Livres, puderam renovar os votos de muita infelicidade. O povo deu outra chance. Votou nos mesmos. Máfia que corrompia até com mortos. A quem vai interessar uma reforma política que determine punição exemplar para os corruptos? Os corruptos? Nunca! Para quem tem saudade do tempo dos militares, não precisa. Naquele tempo a dor era pelo cerceamento à liberdade. É certo que a criatividade explodia. O coração e a razão queriam um país democrático. As pessoas tinham obrigação de ir às ruas. Dizer que existiam e estavam lá para cobrar um país melhor. Arriscavam a vida, eram presas, tudo clamando por um país democrático. Hoje ela chegou. Grande democracia. Os mais revoltados dizem que é a forma de governo do demo. Ou do DEM, como quiser. Hoje, a CCJ da Câmara Legislativa vai ler o pedido de afastamento do governador Arruda. A Comissão de Constituição e Justiça é presidida interinamente por Raad Massouh, também do DEM. Somos livres para protestar. Somos livres para pressionar. Há dúvidas se o conforto dessa liberdade engessa a mobilização. É o nosso imposto. É o nosso trabalho de quatro meses que se pulveriza em bolsos endiabrados durante anos e anos. Quando é que vamos nos livrar desse maldito berço esplêndido? Enquanto isso, as filas em postos médicos e hospitais públicos crescem. Máquinas compradas para o atendimento permanecem encaixotadas e escondidas. Crianças, homens e mulheres, idosos à míngua. Largados no chão. Na educação, os professores amargam a falta de reconhecimento do trabalho que desenvolvem ao formar cidadãos. Até hoje, nem plano de saúde os mestres do GDF têm. São obrigados a educar, enquanto o exemplo dos governantes deseduca. Chega a ser absurdo o número de personalidades que as autoridades adotam quando querem voto, quando estão no poder, quando são pegos, quando querem agradar ou se vingar. São várias caras. Muitos envolvidos no escândalo da Câmara Legislativa pretendem se reeleger. Muitos envolvidos também no governo federal querem continuar no poder. E vão. Não há duvidas. As eleições vêm aí. E vêm pela frente a mesma novela, o mesmo capítulo, a mesma coisa. Mas por que são tão poucos os que sabemos que não se apoderam da verba pública? Não se misturam com projetos duvidosos. São as vozes roucas das urnas. Muito difícil alguma mudança. Carros de som, eleitores também corruptos trocam votos por favores. Esses também não são punidos. Lembre-se. Dia 10, Brasília se veste de branco. É a cor sem partido político. Pela paz, pela limpeza, pela clareza da consciência, pela luz da sabedoria.

A frase que foi pronunciada

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”
Martin Luther King

Correio Braziliense, coluna do Ari Cunha - 08-12-2009

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